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Publicado em Notícias
Postado por  Sede Geral - Ana 11 Outubro 2018
O batismo da Aparecida no Rio Paraíba!

O batismo de Nossa Senhora da Imaculada Conceição

no Rio Paraíba e como ela se tornou “nossa” em Aparecida

 

Da Imaculada Conceição à Conceição Aparecida Há 300 anos, três pescadores desceram o rio Paraíba do Sul à procura de peixes. Sem sucesso. Chegando ao Porto Itaguaçu, lançaram outra vez sua rede e, em vez de peixes, apanharam o corpo de uma imagem de barro cozido e, num segundo lance de sua rede, apareceu a cabeça dessa mesma imagem, logo reconhecida como uma imagem despedaçada de Nossa Senhora da Imaculada Conceição.

A história conta que depois dessa pesca surpreendente, os pescadores apanharam peixes em abundância. A transfiguração de “Nossa Senhora da Imaculada Conceição” em “Nossa Senhora Aparecida”, ou abreviado, da “Imaculada” portuguesa em “Aparecida” brasileira, às vezes, amorosamente, invocada como “Cida” ou “Cidinha”, pode ser considerado o primeiro milagre de uma santa cuja ancestral branca acompanhou os conquistadores no porão de suas naus.

No litoral paulista, Martim Afonso de Souza (1500-1571) dedicou a ela a primeira igrejinha no Brasil. Hoje, em todo o território nacional, são mais de 530 paróquias dedicadas a Imaculada Conceição e mais de 340 a Nossa Senhora Aparecida.

Após a permanência de alguns anos no leito do rio como numa pia batismal, emergiram na rede dos pescadores dois pedaços de barro de uma imagem despida, com seu orgulho de plenitude branca quebrado, sem indumentária, escurecida, realmente “nossa”, Senhora por respeito, não pelo sangue. Azul é apenas seu manto, posteriormente confeccionado para cobrir sua nudez e negritude.

Depois do batismo no rio Paraíba e uma longa permanência na casa dos pobres, a imagem é enfeitada com adornos, cordões de ouro e homenagens que têm valor simbólico, não real. Não foram encomendados pela visitada, mas agradam os visitantes. E não é para menos. O povo sempre dá o melhor para seus hóspedes. A passagem da Imaculada por esse rio indica sua missão como Aparecida. É uma missão que significa despojamento, presença, visitação silenciosa. Realmente, o primeiro milagre da Aparecida é o processo da inculturação pelo qual a Imaculada se tornou a Cidinha missionária, visitada e visitadora de muitos que estão atormentados pelos achaques da vida.

Por quinze anos, a vizinhança se reuniu na casa de seus pescadores e num pequeno anexo, uma espécie de oratório, que foi logo construído, para receber cada vez mais devotos. Ao longo desses anos, Aparecida se inculturou na vida dessa gente. Nas rezas do terço, o povo pediu a proteção da Santa e agradeceu sua proteção. No rio Paraíba não aconteceu propriamente uma aparição milagrosa de Nossa Senhora. A Aparecida é uma santa silenciosa. Apareceu no silêncio das águas e atuou no silêncio das casas, sem dizer uma só palavra, sem fazer promessas nem profecia, sem dar ordens ou indicar um lugar para construir um templo.

Em Lourdes, sim, aconteceram, segundo Bernadete Soubirous, dezoito aparições de uma “senhora branca”. E essa “senhora” falava, deu recados, pediu orações e se identificou na 16ª aparição, no dia 25 de março de 1858, festa da Anunciação do Senhor, com as palavras: “Eu sou a Imaculada Conceição”, eliminando as dúvidas que possam ainda ter pairado sobre a proclamação do dogma por Pio IX, quatro anos antes.

Apesar do silêncio e de milagres discretos, a devoção da Nossa Senhora Aparecida cresceu e se espalhou pela região. Para receber cada vez mais peregrinos, foi necessário construir espaços maiores, simbólicos e reais. Em 1904, a imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida foi solenemente coroada e, em 1929, foi proclamada padroeira oficial do Brasil. Já em 1980, a Basílica Nova foi consagrada pelo Papa João Paulo, e o evento do rio Paraíba tornou-se feriado nacional, litúrgica e politicamente reverenciado a cada dia 12 de outubro.

Em 1984, a CNBB declarou a Basílica, oficialmente, Santuário Nacional e o dia 12 de outubro de 2016 marcou a abertura do Ano Jubilar em comemoração aos 300 anos da aparição de Aparecida. A integração nacional e oficial de um evento milagroso, originalmente destinado aos pobres e apropriado pelos socialmente humilhados como elemento de resistência e luta pela sua dignidade, não é sem risco e aconteceu também em outros países. As manipulações das elites políticas e culturais passam sempre por aquilo que o povo considera sagrado. Há anos concelebrei com companheiros da Teologia Índia uma Missa na Basílica de N. Sra. de Guadalupe, santuário nacional do México, com não indígenas sentados nos bancos e com praticamente todos os índios presentes sentados no chão, no fundo da Igreja, ou encostados na parede. As elites, donas da palavra e do poder, procuram fazer os pobres reconhecerem, voluntariamente, “seu” lugar nas repartições públicas, na sociedade e na Igreja. Nas festas religiosas buscam proximidade com as “autoridades” religiosas populares que lhes dão legitimidade e sacralizam seu poder.

Mas os milagres acontecem “no fundo da Igreja” e nas periferias, onde nasce a esperança. Hoje, doentes abastados e pobres, com suas dores desiguais, procuram a Santa. Vêm para “pagar” promessas atendidas e para encomendar graças urgentes. Cidinha e Rainha, com humildade e majestade,

Nossa Senhora Aparecida pode puxar a cada uma e a cada um para cima e para fora de sua miséria, pode garantir o essencial a cada dia e, na falta desse essencial e apesar dessa falta, transmitir o sentimento de não abandonar os devotos dos quais é mãe. Ela também experimentou a precariedade da vida.

Na passagem pela água do rio e pela casa dos pobres, a Virgem Imaculada integrou no imaginário dos fiéis traços robustos da Mãe Terra, simbolizada não somente pela cor, mas também pelo adorno da Lua aos seus pés, que a faz “espelho de justiça”, porque reflete a luz de Cristo. “Maria ajuda a manter vivas as atitudes de atenção, de serviço, de entrega e de gratuidade”, indicando assim “qual é a pedagogia para que os pobres, em cada comunidade cristã, `sintam-se como em casa´” (DAp 272). Maria como “auxílio dos cristãos” e “continuadora da missão” não significa um intervencionismo na obra da evangelização, mas uma presença operante do imaginário mariano na memória e na história do cristianismo.

A Aparecida nos lembra do nosso “compromisso com a realidade” (DAp 491) e nos “ajuda a manter vivas as atitudes de atenção, de serviço, de entrega e de gratuidade”, indicando assim “qual é a pedagogia para que os pobres, em cada comunidade cristã, `sintam-se como em casa´” (DAp 272).

Se no evento de Aparecida não ocorreu propriamente uma aparição de Nossa Senhora nem uma mensagem aos pescadores nem um milagre convencional - quais são o mistério e a mensagem de Aparecida que atraem multidões de peregrinos?

O mistério da Aparecida está no encontro que permite assumir o sofrimento numa atitude histórica e sobrenatural. Nossa Senhora da Conceição Aparecida se deixou encontrar nas águas de um rio e, por conseguinte, poderia ser chamada de "Nossa Senhora do Encontro".

No silêncio das águas do rio, ela ouve o clamor do povo, se faz cativa dos pobres e assume a cor da pele escura do povo. Ela é advogada nossa sem toga e ajusta as contas quando as instâncias humanas de justiça demoram e as da sorte falham. Seu poder místico pode ser transformado em esperança histórica e ação política. Sua imagem é uma promessa e uma ordem: é possível esmagar a cabeça da serpente.

Informações adicionais

  • Fonte da Notícia: Paulo Suess - Texto publicado na Revista Convergência, out. 2017 e https://paulosuess.blogspot.com

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