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30 Novembro 2018
A Vida que brota do chão sagrado

Fomos “chamadas a proclamar as obras maravilhosas de Deus” (cfr 1 Pd 2,9). 

Ao longo destes oito anos a Missão Palmares/PE, foi se moldando e remodelando diante dos clamores emergentes de um mundo em movimento. A Missão Palmares iniciou diante de uma catástrofe ambiental que deixou um lastro de destruição física e social.

A nossa compaixão foi para o momento emergencial, de acompanhar e apoiar as pessoas afetadas pelo desastre ambiental, na reconstrução de suas casas e laços afetivos, sociais.

Quando começamos a ampliar o nosso olhar para além do emergencial, para entender a estrutura e a superestrutura social da região, percebemos outros clamores: do desemprego, fechamento de usinas, famílias sendo expulsas de seu habitat por rendeiros, barragens... pessoas amedrontadas, alienadas pelo sistema capitalista...

Diante dessa realidade a nossa missão foi se ampliando no campo e na cidade, na luta por direito a terra e a moradia, indenização dos atingidos da barragem, na reorganização socioprodutiva, ajudando os trabalhadores da cana de açúcar a se tornarem agricultores, ensinando a produzir o próprio alimento e a comercializar o excedente, criando três feiras da economia solidária. Além de incentivar e inseri-los nos programas governamentais de comercialização de alimento dos municípios o PAA e o PNAE.

A região possui um grande potencial de produção de banana de diversas variedades. Os espaços de comercialização não vinham absorvendo a produção, com isso passamos a incentivar grupos para o beneficiamento da banana. Após a realização do Curso Gestão da Propriedade Rural, realizado por nós em parceira com professores e amigos simpatizantes de nossa missão, dois grupos de mulheres se organizaram para beneficiar a banana. Um grupo faz nego bom, bolos, doces e o outro grupo faz banana chips. Os dois grupos ganharam o prêmio do Consulado da Mulher. Tem outros grupos beneficiando frutas, fazendo poupas. Outros ensaiando a fazer sorvetes, queijo, e derivados da macaxeira, farinha da batata doce, banana verde, etc...

No meado deste ano, iniciamos o curso de violão por solicitação dos adolescentes e jovens da comunidade. O curso acontece em nossa casa, na área rural. Mas para a surpresa, vem crianças, adolescentes, jovens, adultos e até pessoas da melhor idade buscando realizar o tão desejado sonho de tocar violão. Muitos vêm para serem escutados. Nossa casa sempre foi e continua sendo lugar de escuta e acolhida.

O processo de desenvolvimento local é lento, é preciso respeitar os processos, perceber as conquistas e acreditar na mudança. É difícil a mudança cultural, mudança de mentalidade, fazer acreditar que a mudança vem de cada pessoa humana.

A nossa missão foi objeto de estudo e investigação de muitas pessoas que realizaram TCCs e monografias de mestrado, de universidades de Pernambuco, São Paulo e do Paraná. Muitas pessoas ficam admiradas pelo processo missionário que realizamos juntos aos povos, as mudanças que aconteceram nas vidas das pessoas a partir de nossa presença e atuação.

Temos o reconhecimento do nosso trabalho no âmbito eclesial, da sociedade palmarense, do estado e de algumas organizações brasileiras e internacionais.

O nosso trabalho sempre foi realizado com determinação, coragem e confiança Naquele que nos considerou dignas de confiar esta missão, este povo sofrido. Estamos em tempo de transição, e as mudanças sociais vêm sendo agressivas contra o povo, muitas ordens de despejos, usinas ensaiando em reabrir, o povo prestes a voltar à escravidão.

Estamos encerrando mais um ciclo da Missão Palmares, o Projeto Interprovincial, de três anos. Porém, o povo amedrontado com o que há de vir, clama pela permanência de nós duas irmãs, pois vê em nós a cumplicidade e a ajuda mútua que temos em realizar a missão e a construção de uma nova realidade.

No entanto, o nosso parecer é de permanecermos mais dois anos, para consolidar alguns processos que necessitam de um maior acompanhamento e fortalecimento como os grupos de beneficiamento da produção na busca de mercado, a comissão “tecendo oportunidades para a mata sul”, processos de reintegração de posse de terra e as ordens de despejos de famílias do campo pelo agronegócio e as da cidade pela Transnordestina, como também, concluir e colocar em funcionamento o tão sonhado Mercado da Vida – Centro de Comercialização da Economia Solidária.

Somos enviadas, como mulheres, a colocar-nos a serviço da vida, para que as pessoas possam conquistar a própria dignidade (CCGG 37).

Buscamos nestes oito anos de vida-missão nesse chão sagrado que é Palmares e região, ser mulheres defensoras da vida, testemunhas do amor e da misericórdia de Deus.

Agradecemos a Deus pela oportunidade de fazermos história neste chão sagrado, as irmãs da congregação e das províncias pela sensibilidade, apoio e presença amiga. Ao povo desta terra que muito nos ensinou nossa eterna gratidão.

A vida é feita de ciclos e todo final nos acena com a possibilidade de um novo início. (Leandro M Cortes).

Informações adicionais

  • Fonte da Notícia: Marisa Ribeiro do Amaral e Sandra Aparecida Leoni