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Publicado em Notícias
Postado por  Sede Geral - Ana Cláudia Rocha 19 Novembro 2020
Por que um Dia da Consciência Negra?

“Enquanto a cor da pele for mais importante

que o brilho dos olhos haverá conflito”. Haile Selassie

        Nascemos à imagem e semelhança de Deus. (Gn. 1,26). 

Não há judeu nem grego, escravo nem livre,

homem nem mulher; pois todos são um em Cristo Jesus. Gl 3,28

 

Não é incomum ao conversarmos sobre o Dia da Consciência Negra ouvirmos perguntas como essas:

- Pra quê o dia da consciência negra, se não há dia da consciência branca?

- Por que um feriado, uma data específica para nos lembrarmos dos negros, se todos nós somos iguais?

No entanto, essas perguntas pretendem negar, esconder o racismo presente na sociedade brasileira e a realidade de uma cruel e inquestionável desigualdade em que vivem negros e negras no Brasil. Alguns dados da agenciabrasil.ebc.com.br para exemplificar:

 No Brasil, pessoas negras são mortas com mais frequência que pessoas não negras: A taxa de homicídios de negros (pretos e pardos) por grupo de 100 mil habitantes foi de 43,1, ao passo que a de não negros (brancos, amarelos e indígenas) foi de 16,0. Ou seja, para cada indivíduo não negro que sofreu homicídio em 2017, aproximadamente, 2,7 negros foram mortos. Enquanto 27,9% das pessoas brancas vivem em domicílios sem ao menos um serviço de saneamento - coleta de esgoto e de lixo e fornecimento de água, a proporção sobe para 44,5% entre pretos e pardos. A informalidade também atinge mais esse contingente. Enquanto 34,6% de pessoas brancas se encontram em condições informais de trabalho, a informalidade atinge 47,3% de pretos e pardos.

O racismo na sociedade brasileira deve ser encarado corajosamente como um fato com transversalidade. É preciso perceber que ele forma uma teia de violências, que afeta jovens, homens e mulheres encarceradas e encarcerados; que define os mecanismos que regem o tráfico de mulheres e meninas; que afeta a vida da população LGBTQI+, da população quilombola e ribeirinha; que explica o grande preconceito contra as religiões de matriz africana.

Assim diante dessa realidade podemos dizer que sim, é preciso um Dia da Consciência Negra. Ele se faz necessário para lembrarmos dos negros que lutaram e lutam pela abolição da escravatura nesse país (muitos deles apagados pela história, cuja narrativa teve como único norte e referencial os brancos);

 Para discutirmos a pedagogia racista das escolas (que além de reproduzir nas salas de aula o racismo estrutural e social, também mitiga do currículo escolar, os negros que foram ou são protagonistas e que poderiam se tornar referenciais para muitas crianças e adolescentes negros, muitas das quais ainda sofrem com ofensas e hostilizações vindas por colegas de sala e professores).

Para protestarmos contra o fato de que, apesar de mais de 54% da população ser afrodescendentes, o Estado e as estruturas de poder são majoritariamente brancos,

Para escancararmos o genocídio dos jovens negros e gritarmos com dor, que a cada minuto um jovem negro é assassinado nesse país.

Para nos consternarmos com o aumento da mortalidade de mulheres negras.

Sim, precisamos de uma data específica no calendário, para relembrarmos que o povo afrodescendente tem um passado glorioso, de muitas lutas e uma riqueza de saberes, que foram apagados pela hegemonia eurocêntrica. Saberes esses que é preciso resgatar, valorizar e vivenciar. Enquanto os boletins colocarem os negros sempre como um ser menor, como os vilões-bandidos-marginais nas páginas dos jornais, dos quais a população “de bem” deve se proteger, sim, precisamos de uma data no calendário.

Resumindo, a data comemorativa dedicada à Consciência Negra nos conduz a pensar, gritar e esparramar o racismo brasileiro, sutil e perverso e a desmascararmos a falsa democracia racial brasileira.

Temos como inspiração no seguimento de Jesus, São Francisco de Assis, que na vivência radical do evangelho, testemunhou a irmandade universal. A mensagem do pobrezinho de Assis para o mundo atual é a superação de todas as diferenças, não no sentido de uniformização, mas de amor a todos os irmãos e irmãs na diferença, não excluindo ninguém.

Podemos nos perguntar:

- E entre nós, Irmãs, como andam nossas relações e considerações quanto nossa cor de pele, formação cultural adquirida, nossa origem e naturalidade? Será que existe discriminação?

- Nosso “eu” aceita a todas com empatia e imparcialidade fraterna, como Francisco aponta nos seus escritos e exemplo de vida?

Que o exemplo de São Francisco nos ajude a percebemos a necessidade de um novo olhar, em nosso relacionamento com a criação, com todos os povos e culturas. Sejam banidas de nossas relações a ganância e a exploração, o racismo e toda forma de intolerância.

Informações adicionais

  • Fonte da Notícia: Irmã Jovenilde Alves Neves