A confiança em Deus deve passar pelo confiar nos irmãos, como um filho confia na própria mãe.
Muitos momentos e acontecimentos em nosso cotidiano nos paralisam em absoluta perplexidade: uma doença sem explicação, uma pessoa inocente que sofre, a monstruosidade de uma injustiça, uma catástrofe que destrói vida... Diante deles, quase instintivamente fazemos perguntas, ainda que nem sempre expressas. E sim, também questionamos a Deus: por que tinha que acontecer com esta pessoa? Neste lugar? Por que isto ainda acontece hoje? Como é que Ele permite uma coisa assim?
Geralmente, das maiores vítimas escutamos palavras, reflexões que também nos deixam perplexos: “Deus sabe o que faz”; “podia ser pior”; “Deus é bom, é Pai, é Mãe” ...; “tenho fé”. São falas de quem passou da perplexidade àconfiança num Amor que sempre responde, ainda que não seja da maneira que queremos, ainda que a resposta seja desafio a submergir na profundidade deste Amor, a entregar-nos à Sabedoria “cujos pensamentos não são nossos pensamentos, cujos caminhos não são nossos caminhos” (cf. Is 55,8). Exigem lançar-se no escuro ou no vazio, sabendo que nos esperam braços seguros...
Para Francisco, a confiança tem razão e raiz na pobreza que, em Jesus, Deus mesmo voluntariamente experimentou: “E como peregrinos e forasteiros neste século, servindo ao Senhor em pobreza e humildade, vão por esmola confiadamente, e não devem envergonhar-se, porque o Senhor se fez pobre por nós neste mundo (RB 6,2-3).
Mas a confiança em Deus deve passar pelo confiar nos irmãos, como um filho confia na própria mãe: “E com segurança manifeste um ao outro sua necessidade, para que encontre o que lhe é necessário e o sirva. E cada um ame e nutra seu irmão, como a mãe ama e nutre seu filho, naquilo em que Deus lhe der a graça” (RnB 9,10-11).
Ele provou a própria confiança na força do perdão, da paz. É comovente o relato do capítulo 84, 1-20 da Compilação de Assis que não transcrevemos aqui. Seria muito extenso. É o caso da rixa entre o bispo e o prefeito de Assis. Francisco, doente, escreve então a estrofe seguinte do Cântico: “Louvado sejas, meu Senhor, pelos que perdoam pelo teu amor e suportam enfermidade e tribulação; bem-aventurados os que as sustentam em paz, porque por ti, Altíssimo, serão coroados” (Cnt 6-7).
Reuniu-os na praça do palácio e pediu a seus irmãos para cantarem o Cântico. “Ide também diante do bispo, do prefeito e dos outros que estão com eles e cantai o Cântico de Irmão Sol. E confio no Senhor que há de humilhar os corações deles, vão fazer as pazes entre eles e voltar à antiga amizade e bem-querer” (CA 84,9).No final, tanto o bispo quanto o prefeito reconheceram sua falha e se abraçaram.
Assim como para a maioria do povo, em Clara a confiança toma o nome de fé. Confiança-fé na força de Deus dentro dela, da ação libertadora de Deus através de suas mãos, de sua oração. Fé-confiança que ela transmite em sua ação, em seus conselhos. A sua amiga Ermentrudes de Bruges, escreve: “Não se assuste, filha. Deus, fiel em todas as suas palavras e santo em todas as suas obras, vai derramar sua bênção sobre você e suas filhas. Vai ser o seu auxílio e o seu melhor consolador, porque ele é o nosso redentor e a nossa recompensa eterna” (Er 15-16).
Outro testemunho, se encontra na Legenda, isto é, num testemunho da própria celebração em que ela foi reconhecida e proclamada pela igreja como santa: “Não foi à-toa que o senhor Papa Gregório teve admirável fé nas orações desta santa, cuja virtude provara ser eficaz. Muitas vezes, como bispo de Óstia ou já elevado ao trono apostólico, ao surgir alguma dificuldade, como acontece, dirigia-se por carta à mencionada virgem: pedia orações e já sentia a ajuda. É algo certamente notável pela humildade e que deve ser fervorosamente imitado: o Vigário de Cristo reclamando a ajuda da serva de Cristo e recomendando-se a suas virtudes.
Certamente sabia de que é capaz o amor e como é livre o acesso das virgens puras ao consistório da divina Majestade. Se o Rei dos céus se entrega Ele mesmo aos que o amam com fervor, o que não há de conceder, se convém, aos que o rogam com devoção?” (LSC 27).
Clara, Francisco, em nosso mundo povoado de fake news, de tantas imagens criadas pela inteligência artificial e publicadas às vezes como provas contra inocentes, num tempo de falsa promessa e propaganda enganosa, de amizades interesseiras e alianças espúrias, ajudem-nos a lutar por uma convivência verdadeiramente calorosa, por relações realmente fraternas e solidárias, por uma comunicação transparente e confiável. Que seus filhos e filhas sejam cantores e autores de um Cântico que promove a paz, a justiça e solidariedade.
