Que o exemplo de Francisco de Assis nos ajudem a reconhecer as chagas do nosso povo.
Setembro, do qual acabamos de nos despedir, nos introduz sempre em temas envolventes: a explosão de vida verde com a chegada da primavera, o colorido das flores... os diferentes perfumes no ar, a animação dos pássaros... Tantos sinais de uma presença vital.
Ainda as chuvas abundantes, às vezes preocupantes, a água que acorda a semente no seio da terra, que lava imundícies, mas que também as leva para lugares onde não é seu lugar. Águas que geram vida e podem produzir mortes, neste tempo que também é de inundações em muitos lugares. Setembro do tempo da criação e da celebração de um evento diferenciador na vida de Francisco, este homem profundamente reconciliado com a criação inteira, por ele amada, respeitada e cantada. A fome que mata milhares a cada ano, as doenças que já podiam ter sido debeladas e não o são pela indiferença, pela injustiça que governa tantos países.
Setembro é o mês em que celebramos a impressão das Chagas de Francisco. Chagas que visibilizam ainda mais sua identificação com Cristo. Chagas que seguem sangrando na criação inteira, nela impressas não por Serafim, mas pelas mãos daquele que recebeu a missão de cuidar: o ser humano que rasga impiedosamente seu ventre e o envenena para explorar, que a adoece com seu lixo, e esteriliza com plantios inadequados. Sangram na vida do pobre, cada vez mais pobre. Ela aguarda impaciente, segundo o apóstolo, a manifestação dos filhos de Deus (cf Rm 8,19).
No dia 17 de setembro celebramos o dia em que Francisco é fisicamente marcado em sua identificação com Cristo. Esta notícia está em várias das fontes que chegaram até nós. Trazemos aqui o testemunho do Anônimo de Perusa que chama atenção pela motivação sobre a impressão das chagas de Francisco e sobre o que trouxeram para o povo.
“Passados vinte anos depois que o bem-aventurado Francisco aderiu à perfeição evangélica, Deus misericordioso quis que ele descansasse de seus trabalhos, porque trabalhou muito em vigílias, em orações e em jejuns, em súplicas, em pregações, em viagens, em solicitudes, na compaixão pelo próximo; pois entregou todo o seu coração a Deus seu Criador, e o amou de todo coração, com toda a alma, com todas as suas entranhas. Levava a Deus no coração, louvava-o com a boca, glorificava-o em suas ações. E se alguém proferia o nome de Deus, dizia: — “O céu e a terra deviam inclinar-se a este nome”.
Querendo o Senhor mostrar o afeto com que o amava, pôs em seus membros e no seu lado os Estigmas de seu diletíssimo Filho. E porque o servo de Deus desejava entrar na sua casa e no lugar onde morava a sua glória, o Senhor o chamou para junto de si, e assim migrou gloriosamente para o Senhor.
Depois disso apareceram muitos sinais e milagres no meio do povo, pelos quais os corações de muitas pessoas, que eram duras para crer naquelas coisas que o Senhor se dignara mostrar em seu servo” (AP 46, 1-7).
Clara não teve os sinais físicos especiais das Sagradas Chagas como Francisco, mas as sentiu em seu corpo pela longa enfermidade que sofreu, fruto da rigorosa penitência em que viveu desde sua fuga de casa. Mas seu coração e sua alma eram fortemente marcados pela cruz. Na sua canonização isto foi solenemente reconhecido e proclamado pela Igreja, conforme testemunha a Legenda de Santa Clara:
“Era-lhe familiar o pranto pela paixão do Senhor: ou hauria das sagradas chagas a amargura da mirra, ou sorvia os mais doces gozos. Embriagavam-na veementemente as lágrimas de Cristo sofredor, e a memória reproduzia frequentemente aquele que o amor lhe gravara fundo no coração.
Ensinava as noviças a chorar o crucificado dando junto o exemplo do que dizia. Muitas vezes, ao exortá-las a isso em particular, vinham-lhe as lágrimas antes de acabarem as palavras.
... Para nutrir a alma sem cessar nas delícias do Crucificado, ruminava frequentemente a oração das cinco chagas do Senhor. Aprendeu o Ofício da Cruz composto por Francisco, o amante da cruz, e o repetia com o mesmo afeto. Cingia embaixo da roupa, sobre a carne, uma cordinha com treze nós, lembrança secreta das feridas do Senhor” (LSC 30).
No mesmo dia em celebramos o nascimento de Francisco para a eternidade termina o “tempo da criação deste ano”. Mas suas chagas continuam sangrando na criação e clamam por nosso engajamento na luta para saná-las. Vemos seu sangue escorrer cada dia nos noticiários, sentimos seu cheiro em nossas ruas, aparecem vivas e suplicantes em nossas portas. Inúmeras, doloridas, nauseantes, chocantes, estarrecedoras.
O corpo do mundo, de nossos campos e cidades, de nossas famílias, como o de Clara sofre de doença que se prolonga e prolonga. Estas chagas ainda atingem nossa sensibilidade? Vê-las, senti-las, encontrá-las todos os dias ainda nos des-acomoda, movimente nossos pés, nossas mãos?
Que Francisco e Clara não nos deixem tranquilos. Que seu exemplo e sua intercessão nos ajudem a reconhecer as chagas do nosso povo. Que sigamos celebrando atua-lizando o tempo da criação, para que não seja só mais um tempo especial, mas que vire ação permanente para sanar as feridas que matam a sociedade, matam o planeta, matam a vida.
Feliz festa de São Francisco!
