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Publicado em Notícias
Postado por  Sede Geral - Isabel do Rocio 08 Janeiro 2014
UM CADÁVER DENTRO DE CASA

Refiro-me à televisão, isso mesmo, a um dos meios de comunicação mais popularizado e que, nos últimos sessenta anos, tornou-se a rainha do lar de boa parte das famílias. Em não poucas casas, desbancou a mesa da refeição e do encontro, inaugurando o “comer solitário”, com o prato na mão, diante da “telinha”. Para quem se lembra, nos primeiros tempos de seu surgimento, a TV representou um papel de vanguarda e inovação em muitos aspectos da vida social, política e cultural. Vale a pena refrescar a memória com um desfile parcial e limitado dos bons momentos: a Música Popular Brasileira (MPB), com os festivais da antiga Record que eletrizavam o público presente ou telespectador; a conquista do espaço, com suas imagens inéditas e inesquecíveis; o telejornalismo de ponta da TV Tupi e depois Band, com reportagens de peso e com uma visão ao mesmo tempo sóbria e crítica dos fatos; o tempo sombrio da censura militar, ligada à coragem de alguns jornalistas em denunciar os usos e abusos do regime de exceção; os documentários objetivos, bem fundamentados, com função claramente informativa e formativa; a prestação de um serviço público não só no âmbito dos noticiários, mas também na tarefa da educação para a cidadania; o exercício da política, numa linguagem clara, direta, aberta e transparente, sem o verniz artificial do marketing...

Tudo isso, salvo alguns programas ainda toleráveis, parece coisa do passado. Daí o cadáver dentro de casa: um verdadeiro esqueleto que, para sobreviver ao rápido declínio, busca aqui e ali pedaços de carne podre como um abutre esfaimado. Pedaços de carne podre? Basta acompanhar, para quem tem tempo e estômago, as cenas exibidas nos programas do Big Brother Brasil (BBBs) ou da Fazenda. Verdadeiro atentado aos conceitos mínimos de moral e privacidade: o voyeurismo, que consiste em obter prazer pessoal observando outras pessoas nuas, em roupas íntimas ou em relações sexuais. Popularmente poderia chamar-se “olho no buraco da fechadura” do quarto privado. Em outras palavras, a televisão acaba promovendo em termos gerais esse olhar indiscreto, invasivo e morbidamente cúpido.

Mas o jornalismo atual não deixa por menos. Por um lado, comparecem jornalistas bem vestidos e bem comportados, de preferência no horário nobre ou na noite avançada, com o que se poderia chamar de “noticiário sério” dos telejornais. Apresentam-se numa atitude formal e pretensamente neutra, mas essa neutralidade não passa de uma farsa. Pura ilusão! Ela se desfaz a um observador mais atento na própria escolha das notícias, na sua ordem sequencial e no tom com que são transmitidas. Mais do que uma informação sóbria, contextualizada nos seus diversos enfoques, o que o cidadão assiste é a um desfile de manchetes mais ou menos sublinhadas pelo sorriso, a careta, algum gesto ou até mesmo um comentário espontâneo do apresentador.

Por outro lado, ainda no âmbito jornalístico, temos o sensacionalismo exacerbado das notícias policiais. A espetacularização do fato que, em última análise, pode naturalizar e legitimar a violência. Exemplo: um assassinato brutal, digamos a morte da namorada por parte do namorado, comentado nos seus detalhes mais cruentos, por dias e dias a fio, com imagens insistentemente repetidas, acaba por banalizar a própria vida, tanto da vítima quanto do agressor. O sangue, que antes dava a impressão de escorrer dos jornais sensacionalistas, agora parece pingar gota a gota sob o aparelho televisivo. Tal exposição espetacular dos fatos pode levar o espectador a pensar (ou dizer): “Isso sim que é violência, qui em casa, graças a Deus, tudo está tranquilo”! Frase que traz implícita uma possível normalização da agessividade cotidiana contra a mulher. Em outros termos, a espetacularização da violência faz-nos aceitar como coisa normal e natural as feridas, cicatrizes e hematomas secretos, às vezes ocultos pelo medo e a vergonha, no interior da família ou nos desencontros de uma relação tumultuada.

O mesmo vale para a espetacularização da pobreza, da miséria e da fome, com imagens de corpos e rostos esqueléticos, preferivelmente de crianças: quando expostas ao extremo, tais imagens tendem a gerar comentários como este: “ainda bem que no Brasil não existem essas coisas!” ou “este país é mesmo um paraíso”. Uma vez mais, a espetacularização enche os olhos de fumação e nos impede de ver o que está ao nosso lado, diante do próprio nariz. Numa palavra, espetacularizar é uma forma de paralisar, neutralizar e desmobilizar qualquer ação de combate sério e comprometedor. Tende a manter-nos apáticos e a minar as forças vivas e ativas da transformação sociopolítica. De olhos fixos nos extremos, perdemos a noção das condiçoes de vida do aqui e agora.

Mais grave ainda quando tudo isso vem intercalado por uma propaganda marcadamente apelativa e estridente. Os apelos se traduzem, por exemplo, nas receitas mágicas para emagrecer em poucos dias ou em analgésicos que eliminam a dor em minutos, na cerveja ligada a mulheres atraentes e seminuas, nos automóveis de diferentes marcas e com os mais variados dispositivos... Já a estridência representa a nota clássica de uma série de produtos no ramo dos eletrodomésticos, dos móveis, e de roupas e calçados em geral. Ao lado dessa publicidade espalhafatosa, o telespectador é seduzido também pela chamada propaganda subliminar. Inconsciente e, por isso mesmo, mais eloquente e eficaz. Não é à toa que os profissionais mais bem pagos do mercado de consumo estão entre os especialistas do marketing, o qual, além do mais, não dispensa a contribuição da pesquisa e da psicologia de massa.

Se, a essa programação, acrescentarmos as telenovelas, os apresentadores domingueiros e os filmes hollywoodianos, o menu se torna bem mais apimentado. As primeiras, com algumas raras e boas exceções (Roque Santeiro, por exemplo, ou a o seriado Grande Sertão, Veredas), fazem desfilar pela “telinha” os mesmos atores e atrizes, as mesmas histórias, os mesmos diálogos insipidos, trocando apenas os nomes. Em algumas, a cama e a mesa são as protagonistas principais! Outras visivelmente são feitas para vender roupas da moda. Apresentadores como o velho Chacrinha, Silvio Santos, Faustão e Gugu... Dispensam maiores comentários, particularmente no que se refere ao conteúdo. Quanto aos filmes de Hollywood, é difícil transcorrer um minuto sem altercações violentas, socos e pontapés, nutridos tiroteios, perseguição motorizada e explosões espetaculares, em que carros e pessoas voam em todas as direções.

Talvez esteja aí o nó da questão. Hollywood e a programação norte-americana exercem forte influência na televisão brasileira. Prevalece a noção de que a “telinha” está a serviço do entertainment (em português entretenimento). Ou seja, sentamo-nos comodamente no sofá não tanto para refletir sobre a situação política ou histórica, ou para seguir um tema educativo, mas para um momento de diversão, para passar o tempo, entreter-se. Longe de um serviço público de ordem cultural e de qualidade, a TV tornou-se pouco a pouco um veículo de matéria em decomposição, degradada, quando não antiquada. Além de perder a dianteira para a Internet e o telefone celular em muitos campos, busca reconquistar o público com material de segunda ou terceira mão. Disso resulta a banalização e a degenerescência dos programas, de um lado, e, do outro, o tédio e a busca de alternativas por parte de quem está em casa. As crianças usam a tela para o videogame, os adultos para o futebol, a novela ou o noticiário viciado. Poucos a procuram como um instrumento de aprendizado ou de “aggiornamento” (manter-se atualizado).

Daí, insistimos, a imagem do cadáver dentro de casa! Sem sangue novo e sem coração que o mantenha vivo e de pé. Um corpo sem alma! A TV não acompanhou a velocidade das mudanças, foi atropelada pelas novidades da revolução informática. Quantas vezes as notícias do telejornal nos parcem tão velhas cmo o jornal de ontem, aquele de papel, que serve para tantas coisas – inclusive para ler! Sim, lá está o esqueleto, meio escanteado, meio solitário e meio abandonado... Por mais que inove quanto ao tamanho e ao formato da tela, bem como à precisão da imagem, hoje em dia tem enorme dificuldade de reunir a família ou um grupo de amigos para uma programação comum. Nos grupos e na família, cada um dos membros desenvolveu gostos próprios, buscando-os no mundo virtual das redes sociais. Gostos que não correspondem mais ao menu oferecido pela rainha TV, e esta vai perdendo o trono. Atualmente, tornou-se um grande desafio dar um tempero e um sabor novos à programação televisiva. Apela-se para o sexo, a violência e o sangue... Mas isso sacia e satura! E a “telinha” se arrasta, copiando aqui, repetindo ali, reciclando acolá.

Roma, Itália, 05 de janeiro de 2014

Informações adicionais

  • Fonte da Notícia: Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS

Comentários  

#1 Marilete Jorgina Rover 24-01-2014 18:46
Parabéns Pe. Alfredo, pela coragem e lucidez deste artigo. Li com calma, pois merece reflexão.Oxalá , que muitas outras pessoas tenham a graça de saborear esta riqueza de conteúdo.

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