Olhos que veem a dor dos pobres e que reconhecem a beleza da criação ferida.
Queridas Irmãs!
Neste mês missionário, queremos falar com vocês não a partir do passado, mas da memória viva que caminha com nossa congregação. Somos Amábile, Maria e Liduína; não falamos como figuras frias e distantes, mas como vozes que continuam a repercutir em cada passo que vocês dão, em cada grupo que abraçam, em cada gesto de ternura e justiça que oferecem.
Quando dissemos "sim" à missão, não sabíamos tudo o que estava por vir. Mas sabíamos que o Evangelho nos chamava a encarná-lo entre os pobres, a vivê-lo sem adornos, sem privilégios, sem medo. Não tínhamos convento, nem hábito, nem segurança. Tínhamos fé, paixão e povo. E isso foi o suficiente para afirmar com fé e coragem: “um ano não, nós queremos continuar sempre...”.
Escrevemos com o coração ardente, movidas pelo Espírito que nos impulsiona a olhar o mundo com olhos francisclarianos como dizem vocês. Olhos que veem a dor dos pobres, que reconhecem a beleza da criação ferida, e que não se calam diante das injustiças.
Hoje, como ontem, a missão as chama a sair de si mesmas e caminhar junto aos crucificados da história. O mundo geme sob o peso das violências e das guerras que destroem povos e culturas; a fome devora crianças e famílias inteiras; a migração forçada expulsa multidões de suas terras, condenando-as a viver sem raízes. O feminicídio continua a ceifar vidas de mulheres, irmãs nossas, que clamam por respeito e justiça. O genocídio palestino sangra como ferida aberta na consciência da humanidade. A crise socioambiental ameaça a Casa Comum, e os pobres são sempre os primeiros a sofrer as consequências.
Não se pode ser indiferentes. O Evangelho as convoca a ser voz que denuncia e mãos que anunciam esperança. Como Francisco diante da cruz de São Damião, escutem o chamado: “Vai e reconstrói a minha Igreja”. Reconstruir hoje significa levantar comunidades vivas, solidárias, que enfrentem o poder da morte com a força da vida.
Queridas Irmãs, a missão não é apenas tarefa, é modo de ser. É caminhar com os pés descalços sobre a terra ferida, é partilhar o pão com quem tem fome, é abrir espaço para os migrantes, é proteger as mulheres ameaçadas, é cuidar da criação como irmã. É também levantar a voz contra os sistemas que geram exclusão, contra os poderes que lucram com a guerra, contra os discursos que justificam a violência.
Não se deixem paralisar pelo medo. O Espírito lhes dá coragem para anunciar que outro mundo é possível, que o Reino já está presente quando vocês se fazem irmãs dos pobres e companheiras dos mais vulneráveis. A missão é profecia: é dizer que a vida vale mais que o lucro, que a paz é mais forte que a guerra, que a ternura é mais fecunda que a violência.
Portanto, convidamos cada uma de vocês a renovar o seu ardor missionário. Sua missão é uma resposta profética ou se tornou rotina? Seus pés continuam a andar descalços ou se afastaram da lama que nos tornou “irmãs do povo”?
Quando demos o primeiro passo, não fundamos uma obra para perpetuar estruturas. Criamos uma forma de vida a ser vivida em liberdade, em irmandade, em serviço. Nossa catequese não visava a doutrinação, mas compartilhar a luz da fe e do conhecimento que conduz à libertação. Nossa espiritualidade não era uma fuga, era uma encarnação na fé simples das famílias. Nossa irmandade não era um ninho confortável, era compromisso e serviço aos mais pequenos.
Que cada irmandade seja um sinal de esperança, uma pequena luz que ilumina a noite do mundo. Sejam mulheres que não se calam diante do feminicídio, que não aceitam a fome como destino, que não toleram a destruição da Casa Comum. Sejam irmãs que caminham com os povos indígenas, com os migrantes, com as vítimas da violência, com as mulheres que lutam por direitos e dignidade.
A missão lhes pede coragem e fidelidade. Não é tempo de neutralidade, mas de profecia. Não é tempo de comodidade, mas de entrega. Não é tempo de silêncio, mas de voz clara e firme. Sejam corajosas, irmãs. Continuem sendo mulheres do evangelho, não do sistema religioso. Sejam portadoras de Boas Notícias para o povo. Sejam uma presença que incomoda, que denuncia, que transforma. Não se contentem em simplesmente ser: sejam fermento e luz. Não repitam o que nós tres fizemos desde nossa simplicidade: recriem-no. O mundo mudou, e vocês devem mudar com ele, sem perder a nossa inspiração.
Por isso, irmãs, abençoamos com carinho a reorganização da nossa congregação que vocês empreenderam. Sigam adiante com confiança e alegria e contagiem os leigos e leigas que abraçaram com vocês o nosso carisma. Elas e eles são a força profética viva do Reino que o Espírito suscitou para que nossa missão seja mais fecunda, dinâmica e trinitária. A Trindade é “inclusiva, comunitária e trifásica”, disse o papa Francisco. Sua energia é potencializadora e dinâmica.
Também nos alegra ver vocês caminhando com os povos originários, com as mulheres que sofrem, com os jovens que estão em busca de sentido e com tantas outras pessoas em situação de vulnerabilidade. Abracem com carinho e força a interculturalidade, a justiça socioambiental, a espiritualidade do cuidado. Sejam irmãs do povo, não funcionárias do templo. Não se esqueçam que nossa congregação não começou no templo, mas nas casas. E foi assim que também nasceu o cristianismo.
Unidas, continuamos a caminhar com vocês, em cada irmandade que escolhe a simplicidade. Em cada irmã que escuta, consola e cuida com carinho. Em cada gesto que restaura a dignidade, a paz e a alegria. Não se lembrem de nós apenas com fotos. Lembrem-nos com atitudes. Não nos venerem com palavras, mas com ações proféticas concretas.
Especialmente neste mês missionário acompanhamos e abençoamos a cada uma de vocês e também aos leigos e leigas que participam de nossa vida e missão. E que todas vocês também se abençoem e se fortaleçam!
Que Maria de Nazaré, mulher pobre e profetiza do Reino, as inspire a cantar o Magnificat em meio às dores do mundo. Que Francisco e Clara as ensinem a viver com simplicidade e alegria, mesmo quando tudo parece desmoronar. Que sua missão seja sempre ponte de paz, mesa de partilha, casa de acolhida, e profecia de vida.
Saudações celestiais de Amábile, Maria e Liduína, sementes do Reino que continuam a germinar por meio de vocês e das/dos simpatizantes do nosso carisma.

