Como as mulheres da aurora, compartilho sonhos e memórias despertadas em meio as sombras e névoas da madrugada prolongada, grávida do novo amanhecer. Caminhamos sentindo a brisa suave, o Sopro Divino, que vem da singeleza dos sons de cantos-reza da alma das Mulheres Guarani Kaiowa que sopram o novo amanhecer.
Ruah é sopro, é vento que dá leveza ao corpo cansado, ao respiro ofegante, aos pés que se arrastam sobre a dor e o desencanto. O hálito refrescante do seu sopro penetra as fibras de todo ser, refresca o olhar cansado da espera e devolve a alma um novo vigor, uma nova esperança.
A terra estava vazia e o sopro de Deus agitava as superfícies das águas, o caos fecundado pelo Espírito dá vida a toda criação. Respirar é existir, a vida humana depende da respiração do planeta, das florestas que transformam o dióxido de carbono em oxigênio. A cada movimento de expirar/inspirar é todo ser interagindo com a criação numa total sinergia (cooperação, interação, comunhão).
Para os povos indígenas, inspirar (pytú) significa trazer para dentro o ar que passou pelas árvores, pelos rios, pelos animais. Literalmente você carrega a floresta dentro do peito. É comunhão. O movimento de expirar (pytuhé) leva você a devolver seu sopro para a mata. Sua respiração alimenta as plantas. É reciprocidade.
Para os Guarani Kaiowa – ñe’e – som dos seres que se comunicam e transmitem a vida- significa respiração, palavra, Espírito, logo respirar é receber a palavra-alma. Quando a criança nasce, Nhanderu – o Pai Primeiro- envia ñe’e para habitar o corpo. O ñe’e se assenta no coração. Respirar é manter a alma no corpo. Inalar é puxar para dentro o pytuporã, o “bom respirar” que vem de Nhanderu. É receber força, conselho, sonho. Por isso o canto-reza, Guahu é feito na madrugada, quando o ar está carregado de ñe’e porã.
Ao pisar com leveza escutamos o sussurrar do Espírito que a cada manhã nos recria, como naquela manhã da criação quando “formou do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o ser humano transformou-se num ser vivo”. (Gn 2,7). Soprou sobre nós, humus-terra, o seu Espírito e passamos a respirar o seu hálito, portanto, a respiração é o dom da vida, da divindade que nos habita. Para as culturas indígenas o primeiro humano recebeu o sopro do Criador. Respirar consciente é lembrar – “Eu não me fiz, fui soprado” -
No deserto, Moisés encontra a sarça ardente e ouve o nome de Deus – Iahweth- segundo biblistas, não há articulação entre as palavras, simplesmente um sopro. O nome divino é repetido, sempre que exalamos e inalamos.
O profeta Elias foge para o Monte Horeb e espera pelo Senhor que não estava na tempestade, no vento impetuoso, mas se manifesta numa brisa suave ou suave respiração. Deus fez-se um de nós quando Jesus respirou pela primeira vez. A sua curta existência terminou quando Ele inclinou a cabeça e entregou o Espírito (fôlego), Jo 19,30. Na manhã de Páscoa soprará sobre os discípulos, partilhando a paz e o perdão de Deus: “Recebei o Espirito Santo. Aqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados”... ( Jo 20,22-23). Todo pequeno ato de perdão é Cristo soprando sobre a comunidade. Uma comunidade que não perdoa sufoca a todas e não possibilita a circulação de um ar renovado. Por fim, Pentecostes, a grande efusão do sopro de Deus sobre a comunidade que paralisada pelo medo na força do Ressuscitado se coloca a caminho. Portanto, a ressurreição é como encher os pulmões do oxigênio vivificador do sopro da Divina Ruah: “Ruah, Ruah, aliento de Dios en nosotras”.
EXPIRAR
A missão de Jesus e nossa vida espiritual começa com uma espécie de esvaziamento de si mesmo. Os discípulos são preparados para a missão mediante um vazio. Eles têm de perder Cristo, para receber o Espirito. A ausência de Jesus prepara o caminho. “É melhor para vós que eu parta. Se eu não partir, o Defensor não virá a vós. Se eu for eu enviarei a vós”. (Jo16,7). Ao expirar, forjamos o espaço onde brota a inspiração. A vida espiritual começa com um deixar de respirar. Precisamos de um vazio no íntimo de nosso ser para receber o Espírito. Não é um vazio estéril, mas de uma busca que anseia pelo Absoluto. Deus faz sua morada no vazio, Ele não precisa de muito espaço, pois quando se fez carne habitou o pequeno ventre de Maria. Quando o menino cresceu foi cravado numa cruz e clamou por seu Pai, que parecia tão ausente. Eis um amplo vazio à espera de ser preenchido na manhã de Páscoa. O coração que anseia preencher o vazio de uma forma imediatista, corre o risco dos excessos/apegos e de perder o foco daquilo que é essencial. O contraceptivo para a fertilidade divina, vem da necessidade humana de possuir, da preocupação com o futuro; da racionalidade que quer encontrar respostas para tudo. Excessos e apegos são sinais de que precisamos nos esvaziar para se deixar fecundar pelos dons do Espírito. O vazio só poder ser preenchido por Deus, que chega no seu próprio tempo. Um modo de afogar o seu silêncio ensurdecedor é manter a distância do Espírito que nos impele a ir ao deserto; onde Deus falará suavemente a Israel: “Por isso, eis que, eu mesmo, a seduzirei levando-a ao deserto e falando-lhe ao coração. (Os 2,16).
INSPIRAR
Já expiramos, esvaziando os nossos pulmões para que esse vazio seja preenchido pelo Sopro da Divina Ruah, o Espirito Santo, que é o transbordamento do amor do Pai e do Filho. Deus se alegra e aprecia nossa particular humanidade, somente Ele penetra na total unicidade de cada um. Mesmo as pessoas que mais amamos, só em parte vislumbramos a beleza e riqueza de suas diferenças e peculiaridades, a sua unicidade na diversidade. A percepção do outro é muito limitada, porém o amor do Espirito de Deus derramado sobre nós é ilimitado. Seu Espirito impele-nos para fora de tudo que é costumeiro, familiar. No livro do Êxodo 33,7, quem deseja encontrar o Senhor deve ir à tenda do encontro, fora do campo. Fora do campo é onde encontramos Deus. Fora da instituição, fora das crenças e percepções culturalmente condicionadas. É fora do campo que encontramos o Outro que é diferente e descobrimos quem somos. Inalar o Sopro de Deus é ser oxigenada por um amor que é particular e universal. Ao respirar esse ar fresco os nossos amores são alargados, libertos da exclusividade e da estreiteza. A disciplina da vida espiritual consiste em manter estável o ritmo da respiração, em permanecer fiel aos amores particulares, nos quais está enraizada nossa vida, mas abertas a outros amores. Amadurecemos na vida espiritual quando aprendemos dolorosamente a articular eros e ágape.
Reconhecemos que a nossa verdadeira natureza nos chama para aventurar-nos em novos caminhos, precisamos nos perder no amor; porém é o que mais tememos. Abandonar o que é seguro, familiar é correr riscos. Se amarmos verdadeiramente, cometeremos erros, faremos tolices e até cometeremos pecados, mas é melhor que nunca ter arriscado. Os corajosos sãos os que se aventuram, sabendo que são fracos e que até podem falhar, confiando no Senhor e não na sua própria força. A vida espiritual não é para covardes, mas também não é para fortes e heróis. É para todos nós, ao inalarmos o oxigênio do amor transbordante de Deus. Podemos tropeçar, e, com a graça de Deus, haveremos de chegar e inalar uma atmosfera livre. São Francisco e Santa Clara ofereceram oxigênio aos que vieram após eles.
CONSPIRAR: RESPIRAR COM ALGUÉM, JUNTOS.
Durante as retomadas – luta do Povo Guarani Kaiowa pelo Território ancestral (antepassados)- eles cantam e dançam a noite toda. Respirar juntos é resistir juntos. É manter o nhe’e, coletivo vivo, quando tentam matar o corpo.
Conspiradores respiram o mesmo ar de Jesus e os discípulos, comendo pão e bebendo o vinho, respiram o mesmo ar. O mesmo sonho, a mesma utopia do Reino. A comunidade dos cristãos, a Igreja e nossas irmanadas que permanecem no amor comungam da Memória, do compromisso de amar na gratuidade, “arrisquemo-nos viver por amor”, para que o mundo creia que somos filhos e filhas do mesmo Pai e assim OXIGENAR as relações e devolver a Criação um novo respiro/sopro.
Fonte Bibliográfica – “A arte de viver em Deus”. Timothy Radecliffe- Paulinas (2023)
Rezeno Jovito Conscianza – Guarani Kaiowa- Território Panambi-Lagoa Rica- Dourados MS.

